quarta-feira, março 21, 2007

Aos Pilares

Escolho os meus amigos não pela pele nem outro arquétipo qualquer, mas pela pupila.Têm que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.
A mim não interessam os bons de espírito ou os maus de hábitos.Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo.
Deles não quero resposta, quero o meu avesso. Que me tragam dúvidas e angústias e aguentem o que há de pior em mim.
Para isso, só sendo louco!
Quero-os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.
Escolho meus amigos pela cara lavada e pela alma exposta.
Não quero só o ombro ou colo, quero também sua maior alegria. Amigo que não ri junto não sabe sofrer junto.
Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade.Não quero risos previsíveis nem choros piedosos.
Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça.
Não quero amigos adultos, nem chatos.Quero-os metade infância e a outra metade velhice. Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto. E velhos, para que nunca tenham pressa.
Tenho amigos para saber quem eu sou. Pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que “normalidade” é uma ilusão imbecil e estéril.

Oscar Wilde

quarta-feira, março 14, 2007

Coragem



"Um homem nunca sabe aquilo de que é capaz até que o tenta fazer. "

Charles Dickens


Ou como diria o meu amigo Conceição Lopes, "Um homem nunca sabe aquilo de que é capaz até o sonhar..."

Boa!


Imagem tirada de http://www.1000imagens.com/foto.asp?idautor=1199&idfoto=13&t=&g=&p=11

quinta-feira, março 08, 2007

História exemplar

Entrei.
- Tire o chapéu – disse o Senhor Director.
Tirei o chapéu.
- Sente-se – determinou o Senhor Director.
Sentei-me.
- O que deseja? – investigou o Senhor Director.
Levantei-me, pus o chapéu e dei duas latadas no Senhor Director.
Saí.

Mario-Henrique Leiria, Contos do Gin Tonic

Simplicidade - Circle of love


terça-feira, março 06, 2007

Boas colheitas - Encontro com E. Gordon Craig I


A propósito do que vi há poucos dias...


Segundo Craig, raramente o que é bonito, o que é fácil, o que produz efeito é belo. Esses truques poderão servir ao actor, numa primeira instância, apenas para lhe trazer vantagens, quer sejam de ordem social ou material, podem até exibi-lo, mas nunca constituirão “símbolos perfeitos de tudo quanto existe na Natureza” .
O actor não procurará atalhos fáceis no seu trabalho, mas sim um “caminho verdadeiro”. É o fundo das coisas que nos deve importar”. O actor, no seu processo criativo, terá de descer "ao mais profundo da sua alma e tratará de descobrir aí tudo o que ela guarda". Nesta perspectiva, o processo criativo não será influenciado por estímulos externos à sua pessoa mas sim por estímulos internos. É com este material que o actor trabalha. O actor utilizará o material que é seu, fazendo com que o efeito, aquilo que parece bonito, aquilo que parece bem, seja estranho e muito pouco natural, tornando-se, desta forma, pouco verdadeiro e, em consequência, pouco interessante.

Goran Bregovic ft Kayah - Nie ma, nie ma ciebie

segunda-feira, março 05, 2007

Boas colheitas - Encontro com Grotowski II


sacrifício do actor - acto de amor verdadeiro


O actor, ao sacrificar-se (acto de amor), ao colocar na personagem tudo o que de mais pessoal, mais verdadeiro e mais íntimo tem, revela sentimentos que, muito embora pareçam individuais, são os mais universais e aqueles que permitem aos espectadores uma melhor identificação com o que estamos a dizer, aqueles que vão mais fundo e que se tornam experiências criativas, verdadeiramente marcantes e dificilmente esquecíveis, fazendo com que o espectador, ao assistir ao espectáculo, também se analise a si próprio.


Boas colheitas - Encontro com Grotowski I


actor santo VS actor cortesão

o actor cortesão (Stanislavski chama-lhe mecânico) é aquele que ao longo da sua experiência coleccionou um vasto repertório de truques, de métodos e artifícios. Quando trabalha numa determinada personagem vai mudando a combinação entre esses truques (ou efeitos, ou clichés, ou artifícios) que foi aprendendo, construindo uma fórmula que lhe parece a mais indicada, a que resulta, para se vender perante a sua assistência.
O actor santo é aquele que trabalha com o inconsciente, que ultrapassa os seus próprios limites e representa num estado de transe, isto é, “a capacidade de concentração num sentido teatral particular, e que pode atingir-se com um mínimo de boa vontade”. É aquele que estabelece uma atitude de dádiva de si próprio, de sacrifício perante o seu público, sendo comparável a um acto de “amor verdadeiro”.